Apego: autoimagem

          Recentemente fui questionado durante uma consulta: “Mas fui assim a vida toda, é muito difícil mudar, não sei se consigo” – é interessante perceber como o ser humano se engana sobre si mesmo; no fundo sempre temos as respostas dentro de nós, mas por uma questão de jogo de nossos egos, acabamos por não admitir que a pergunta que deveria ser feita na verdade é: Eu realmente quero mudar? Deixar de ser o que acredito que sou? Será que quero realmente desmanchar todo meu castelo de areia e ter o trabalho de reconstruir outro tudo de novo? Quando indaguei o paciente em questão, a resposta foi: “É, na verdade não sei se quero mudar”. Então, vamos falar de forma simples e direta sobre o apego a autoimagem.

            Mudar a si próprio, desnudar a autoimagem para se reconhecer a todo instante não é um processo comum à maioria das pessoas. Se analisarmos, a própria sociedade possui um sistema fortíssimo que já faz com que naturalmente mantenhamos um tipo de comportamento: seu trabalho por exemplo, geralmente você terá algumas funções pré-estabelecidas que deverão ser seguidas, porém não há o que se possa fazer a respeito; mas entenda que psiquicamente isto contribui com que nossa mente se acostume com um determinado padrão a seguir. É muito comum eu perceber em consultório, por exemplo, já que citei o trabalho, que, as pessoas que não possuem medo de mudança ou que adentraram em um processo de espiritualização que visará sua qualidade de vida, perdem a vontade de permanecer dentro do mundo corporativo seguindo sempre o mesmo caminho, ou fazendo sempre a mesma coisa, estes possuem uma sede de autoconhecimento e procuram evoluir meio sem saber para onde estão indo, desde que estejam melhorando (ou seja, mudando). A autoconscientização sem julgar-se é o primeiro passo para o desapego da autoimagem seguir um caminho sadio.

            Entenda que uma vez que você altere sua consciência, seja através de um processo terapêutico ou através da leitura de um livro ou qualquer outra forma, caso, você interrompa seu processo de mudança, algo dentro de você o fará sentir culpa, é como se você estivesse fazendo algo de errado, e com o tempo, provavelmente uma sensação leve de fracasso começará a se instalar no inconsciente, até o dia, que você resolva assumir para si que algo novo precisa ser feito. Você pode pensar então que “Este apego sobre quem sou não deve ser maior do que minha vontade de mudança”, na verdade, você precisa entender que ele não pode ser maior do que suas ações para se desapegar da crença de você é. Entenda, de nada adiantará você ter consciência, ter a vontade, mas não se aventurar a lapidar-se no dia a dia, com novas ações.

            Eu sempre falo para meus pacientes que não há evolução sem mudança, o que não muda, está estagnado, ou seja, não há evolução sem desapego da autoimagem, pois quanto mais enraizada ela for, mais complexo será seu trabalho para aparar suas arestas. Descobrir-se é não ter medo de olhar para dentro, independente do que você verá, se houver apego a quem você acredita ser, pode facilmente causar dor desnecessariamente.

            A famosa frase de Raul Seixas: “Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante” descreve exatamente sobre a necessidade, perante a lei de evolução da vida, que você mude, se desapegue da necessidade de fixar autoimagem, tendo a consciência que podemos sempre, experimentar a vida em suas mais variadas formas. Fixar este apego é como amarrar uma âncora em seu tornozelo e delimitar que pelo resto de sua vida que você será esta mesma pessoa que você é hoje.

            Agora, ter a consciência que você pode ser o que você deseja ser mas nada fazer, é pior, pois como falei, vai gerar culpa; a única solução é: vá, se conheça, se permita, se desapegue, você pode se descobrir inúmeras vezes durante sua vida, se tiver medo, vá com medo mesmo, melhor do que ficar parado. Acredite, evoluir quem você é só depende de sua permissão, e de sua ação. Descubra seus medos e enfrente-os, é a única forma de você crescer espiritualmente.

 Diógenes Sales

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