Apego: o início (parte 1)

 

Em uma de minhas últimas consultas, a indagação de uma paciente foi: Por quê é tão difícil se desapegar desta idéia fixa que martela em minha mente? Eu não queria estar assim, pois esta fixação só me traz tristeza. Vamos falar um pouco, sobre esta, que é sem dúvidas, uma das causas principais dos maiores sofrimentos humanos: o Apego. Como o assunto é complexo, possui várias áreas, dividirei em partes: início do apego, relacionamentos, sexualidade, trabalho etc. Neste artigo, falarei sobre “Como começamos a programar o conceito pessoal de apego” no dia a dia.

Primeiramente, é interessante analisar que nosso próprio sistema educacional nos programa a manter-se “apegados” a ideia de identificação de absolutamente tudo, você por exemplo, acredita piamente ser esta pessoa a qual todos a sua volta conhece pelo seu nome: João, Maria etc; mesmo aqueles mais despertos que sabem que o estado físico é passageiro, e a verdadeira identidade do Ser não é o nome muito menos o corpo o qual se identifica, mas sim,  a essência da alma; mesmo estes, fixam suas identidades ligados a imagem de quem são, o corpo que possuem e o nome de carregam. É cruel ver o quanto o ser humano se define através da autoimagem, acreditando piamente ser “aquele” que ele pensa ser em sua mente, e a crença é tão grande, que ele veste o personagem, e interpreta o tempo todo, a tal ponto, que chega a defendê-lo como sendo ele próprio, pura ilusão; o interessante que observo em consultório, principalmente nos mais velhos, é que muitos já sabem que vestem um personagem, mas acham tarde demais para se desfazer deles; pelo fato de já terem sofrido algumas decepções na vida, acabaram por se conhecer um pouco mais, porém, não possuem a coragem suficiente de se desapegar da imagem externa criada para os outros: “Seria muita loucura Diógenes a esta altura da vida, minha família vai me chamar de louca” – e nesta mentira, segue sua vida triste e melancólica, sozinha, dentro de seu próprio mundo.

Vamos no início, ver como se forma o apego em nossas vidas, perceba que ele se esconde nas pequenas atitudes:

- Na dificuldade de livrar-se de objetos velhos em casa, apegando-se a valores familiares, memórias pessoais, dando mais valor ao físico, do que o sentimento guardado no coração (este que ficará, com ou sem o objeto).

- Na cisma em manter roupas antigas, por apego a um valor emocional. Sendo que muitas você não usa há anos (isto vale também para os calçados).

- Em livros, revistas, recortes de jornais que você sabe que nunca mais irá ler (mas na dúvida deixa ali não é mesmo? Vai que um dia você precise), doe, repasse o conhecimento.

- No sentar-se sempre na mesma cadeira a mesa em uma refeição, inclusive definindo aquele assento, como “seu lugar” a mesa, há anos. Maleável isto não? Como se fosse mudar o sabor do alimento.

- No sentar-se sempre no mesmo canto do sofá, “este é o meu cantinho”. Sei…

- Nos dias inteiramente programados à risca (não estou falando de horários fixos de trabalho), mas há apegos do tipo: todos os dias tal hora tomo meu café naquele lugar (como se esta afirmativa devesse ter um valor imenso), olha a armadilha disfarçada de comodismo.

- Nos lugares fixos a ir quando se deseja relaxar, e há os que dizem: Ah eu vou lá há anos, já conheço, melhor ir lá do que ir em outro lugar que não sei como será (não se abrindo a novas possibilidades de conhecer outros novos).

- No manter o mesmo ciclo social por décadas, claro que tem um lado muito bonito nisso, amizades duradouras são joias que não há como mensurar o valor; mas apenas perceba se não está criando muros a sua volta para novas pessoas entrarem em sua vida; pois se algum dia um dos fixos saírem, você pode sofrer além do normal.

- Comer sempre a mesma sobremesa, parece algo banal, mas já parou para pensar que você poderia experimentar novos sabores?

- Nas ideias de seus valores pessoais fixos, sequer abrindo-se a desbravar, quem sabe, uma nova forma de enxergar o mundo. Não é simples derrubar o castelo de areia construído por anos, e abrir-se a uma nova paisagem, mas uma vez enrijecido, você poderá se tornar uma “estátua no tempo”, dura, sempre com a mesma imagem, isto é experimentar a vida em suas infinitas possibilidades? Viver.

Acredite, quando você deixar seu corpo físico, não levará consigo nem ele próprio, quanto mais os objetos guardados, repare quantas coisas velhas você mantém dentro de casa, desnecessariamente, por puro apego, depois entenderá melhor porque também possui tanta dificuldade em perdoar, em se desprender. Enfim, há inúmeras formas e atitudes que você, sem perceber, alimenta em sua psique inconscientemente, o programa forte do “Apego”, fortalecendo-o com doses constantes seja nas ações comportamentais ou na posse material. Muitas destas ações podem parecer à primeira vista, banais, mas não são, acredite, perceba o quanto diariamente você reforça sua facilidade/dificuldade em se desprender. Falo isto, pois percebo, o enorme tumulto mental que é, quando, principalmente, alguém precisa de desapegar de um relacionamento do passado, ou de uma rejeição, seja no trabalho, amizade, relação familiar ou morte. Por mais que a pessoa saiba e compreenda conscientemente a necessidade de seguir adiante, algo dentro de si, em sua mente inconsciente dificulta este desprendimento, criando uma prisão mental, fixa, doentia e incontrolável: perceba em alguns dos itens que mencionei, se você não está alimentando desde criança o conceito de Apego cotidianamente em sua mente, há anos, sem perceber. Fortalecendo ele, disfarçadamente.

Para compreender de que forma lidar com seu apego no trabalho, no amor, na sexualidade, na religião, na autoimagem de quem você acha que você é, na família, na morte; é preciso começar pelas beiradas, veja em sua borda, como ocorre esse efeito em sua vida, o quanto permite-se afetar sem perceber, por pequenos apegos triviais.

A vida é um fluxo de constantes mudanças, progressos, e a partir do momento que você fica apegado a seja lá o que for, esta pequena parte sua fixa-se, estagnada, sem possibilidade de evoluir. Para se evoluir, em qualquer filosofia ou religião, se você ler discursos de grandes mestres da história, todos possuem um ponto em comum: é preciso eliminar o apego dolorido da posse com o plano físico, seja com pessoas, objetos ou conceitos enraizados não abertos a mudança. Só assim, você experimentará a vida em maiores possibilidades.

Tomar algumas atitudes como livrar-se de objetos velhos, reordenar os móveis em seu quarto, arrumar seu guarda-roupas doando algumas peças, dar objetos pessoais, ir a lugares novos nunca antes pensados por você, conhecer novos ciclos sociais diferentes dos seus, abrir-se para a possibilidade de ver por um outro ângulo,  um conceito já definido por suas crenças, experimentar um novo sabor, uma nova roupa;  todas estas ações, trarão a você um certo alívio; teste e perceberá que desapegar-se começa nas pequenas coisas. Isto abrirá uma possibilidade para você, iniciar o processo de reprogramação de sua psique sobre o conceito de “apego”. Apenas certifique-se de que, esta doação não está disfarçada na verdade, pelo desejo de comprar o outro, querendo na verdade, suprir uma carência por uma aprovação de que se fez algo bom; o desprendimento deve ser pleno, sincero e sem expectativas.

Compreenda que, certas ações podem abrir a porta para grandes mudanças em sua vida. Veja o quanto a sua programação mental sobre a posse é alimentada, para então compreender a questão do coração que tanto traz sofrimento ao ser humano. Quebre estes apegos, liberte-se das amarras de que você é isso ou aquilo, assim ou daquele jeito, você ser humano, é uma mutação constante, e se por ventura fechar-se em seu mundo, certamente a rigidez pela vida e a tristeza facilmente adentrarão em seu coração, e se tornará ranzinza. Desamarre a âncora de seus pés primeiro, para depois subirmos a superfície e respirar aliviados.

Repare o quão apegado você foi e ainda é com pequenas coisas, nas mais simples, pode iniciar analisando os exemplos citados; faça primeiramente esta verificação para identificarmos posteriormente o porquê de sua facilidade/dificuldade em se desapegar, mas seja sincero consigo, perceba o quão enraizado você é desde ações diárias até posse de objetos. Faça esta análise inicial. No próximo artigo, falarei mais a fundo do apego emocional dentro dos relacionamentos, o quanto esta doença está deteriorando a mente das pessoas ultimamente, travam seus caminhos, deixando-as doentes, e como lidar com isso.               

Artigo de Diógenes Sales

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